Avião Patriot entrega 500 mil doses de vacina da China para El Salvador.

O avião do New England Patriots entregou 500 mil vacinas contra a COVID-19 fabricadas na China para El Salvador e, com isso, se envolveu inadvertidamente em uma acirrada disputa geopolítica por influência na América Latina.
Nas primeiras horas da manhã de quarta-feira, pouco depois da meia-noite, o principal diplomata da China no pequeno país centro-americano recepcionou o "avião de patrulha" em sua chegada a San Salvador.
Quando os emblemas vermelho, branco e azul dos seis vezes campeões do Super Bowl foram estampados no Boeing 767, o compartimento de carga se abriu para descarregar um enorme contêiner com caracteres chineses. O embaixador Ou Jianhong afirmou que a China “sempre será amiga e parceira de El Salvador”.
Seus comentários foram uma crítica pouco sutil ao governo Biden, que nas últimas semanas atacou o presidente Nayib Bukele pela destituição de vários juízes da Suprema Corte e de um importante procurador, alertando que isso mina a democracia em El Salvador.
Bukele não hesitou em usar seu relacionamento crescente com a China para buscar concessões dos Estados Unidos e, em diversas postagens nas redes sociais, alardeou a entrega da vacina — a quarta remessa de Pequim para El Salvador desde o início da pandemia. O país já recebeu 2,1 milhões de doses da vacina da China, mas nenhuma de seu aliado tradicional e maior parceiro comercial, os Estados Unidos, que abriga mais de 2 milhões de imigrantes salvadorenhos.
"Vai, Pats!", tuitou Bukele na quinta-feira com um emoji de carinha sorridente e óculos de sol — embora o próprio time tivesse pouca relação com o voo, que foi organizado por uma empresa que aluga os aviões quando o time não os está usando.
Em toda a América Latina, a China encontrou terreno fértil para a chamada diplomacia das vacinas, visando reverter décadas de domínio dos EUA. A região é a mais afetada pelo vírus no mundo, com oito países entre os 10 primeiros em número de mortes per capita, segundo o site de pesquisa online Our World in Data. Ao mesmo tempo, uma profunda recessão eliminou mais de uma década de crescimento econômico, e governos em diversos países enfrentam crescente pressão, inclusive protestos violentos de eleitores revoltados com a incapacidade de controlar o aumento vertiginoso das taxas de infecção.
Esta semana, a Comissão de Revisão Econômica e de Segurança EUA-China, que assessora o Congresso sobre o impacto da ascensão da China na segurança nacional, alertou que os EUA precisam começar a enviar suas próprias vacinas para a região ou correm o risco de perder o apoio de aliados de longa data.
“Os chineses estão transformando cada carregamento que chega à pista de decolagem em uma foto”, disse Evan Ellis, especialista em China e América Latina do Instituto de Estudos Estratégicos da Escola de Guerra do Exército dos EUA, ao painel na quinta-feira. “O presidente chegou a declarar: ‘Há uma bandeira chinesa na caixa’. Infelizmente, os chineses estão fazendo um trabalho de marketing melhor.”
O porta-voz dos Patriots, Stacey James, afirmou que a equipe não teve participação direta na distribuição da vacina e descartou a ideia de que estivessem tomando partido em uma disputa geopolítica. No ano passado, no início da pandemia, o proprietário dos Patriots, Robert Kraft, fechou um acordo com a China para usar um dos dois aviões da equipe para transportar 1 milhão de máscaras N95 de Shenzhen para Boston. O avião foi fretado pela Eastern Airlines, com sede na Filadélfia, quando a equipe não o estava utilizando, disse James.
“É gratificante participar de uma missão ativa para levar uma vacina aonde ela é necessária”, disse James. “Mas não se trata de uma missão política.”
Como parte da diplomacia das vacinas, a China prometeu fornecer cerca de 1 bilhão de doses de vacina para mais de 45 países, segundo a Associated Press. Dos muitos fabricantes de vacinas chineses, apenas quatro afirmam que serão capazes de produzir pelo menos 2,6 bilhões de doses este ano.
As autoridades de saúde dos EUA ainda não comprovaram a eficácia da vacina chinesa, e o Secretário de Estado Antony Blinken reclamou que a China politiza a venda e as doações de vacinas. Enquanto isso, democratas e republicanos criticaram duramente o histórico da China em matéria de direitos humanos, suas práticas comerciais predatórias e a vigilância digital, considerando-as um obstáculo para estreitar os laços bilaterais.
Mas muitos países em desenvolvimento que lutam para vacinar suas próprias populações têm pouca tolerância a críticas à China e acusam os Estados Unidos de acumular mais vacinas sofisticadas de fabricação ocidental. O presidente Joe Biden prometeu na segunda-feira distribuir mais 20 milhões de doses de sua própria vacina nas próximas seis semanas, elevando o compromisso total dos EUA no exterior para 80 milhões.
O país latino-americano também agradeceu à China pelo investimento em grandes projetos de infraestrutura e pelas compras de mercadorias da região em meio à recessão provocada pela pandemia.
Também nesta semana, o Congresso de El Salvador, dominado por aliados de Bukler, aprovou um acordo de cooperação com a China que prevê um investimento de 400 milhões de yuans (US$ 60 milhões) para a construção de estações de tratamento de água, estádios, bibliotecas, etc. O acordo é fruto do rompimento das relações diplomáticas com Taiwan e da aliança com a China comunista, em 2018, pelo antigo governo salvadorenho.
“O governo Biden deveria parar de dar conselhos públicos a formuladores de políticas latino-americanas sobre a China”, disse Oliver Stuenkel, professor de relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo, Brasil, em um discurso para um painel consultivo do Congresso. “Isso soa arrogante e desonesto, considerando as muitas consequências econômicas positivas do comércio com a China na América Latina.”


Data da publicação: 10 de junho de 2022